segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A Caçada - Parte 3

Metodicamente, Gregory separava no chão os retalhos curtidos ou conservados que estavam dentro da mochila, ansiava por aquela noite, e sabia que se tudo desse certo, essa era a parte mais estranha de toda a viagem, ao lembrar do que faria, acabou começando a tremer um pouco, ansioso.
– Ótimo, agora preciso que me arranjem um pouco de água pra amolecer e trabalhar a argila! Vocês dois, preparem fogueiras – Apontou para Therul e Thomas. –  Aqui e ali, ponham a menina aqui do meu lado, e por favor, façam um pouco menos de barulho! Se errar no que farei agora, a viagem terá sido em vão!
Oeryn foi trazida por Julius, que a vestiu e desenhou as diversas runas em seu rosto, mãos e pés, ela tinha sono e parecia desinteressada em acordar, o tempo ao lado dos homens na estrada fez com que se acostumasse a ser carregada, já não chorava por sentir cheiro de sangue ou fome, e embora não enxergasse, parecia reconhecer bem cada um dos contratados, que por sua vez acabaram criando algum afeto com ela, ensinando canções e rindo da gagueira comum de quem tenta falar as primeiras palavras.
Após serem dadas as instruções, Gregory apanhou o manto de seda rubra que utilizaria e vestiu após retirar a parte superior da armadura, tinha ainda que fazer alguns moldes com o barro e montar a pequena balança que trazia na bolsa, conforme organizava os últimos detalhes pensou novamente.
– Como essa criança cega irá se tornar algo importante pra nossa guerra? Como pode?  
Era perceptível que o Capitão estava mais impaciente do que o normal, se vestiu com pressa, provavelmente por saber que ele e os homens haviam cruzado as fronteiras das quais fora alertado antes mesmo de entrar na mata, em breve estaria pronto pra gritar pela “Cura” da pequena. Componentes postos, fogueiras acesas e balança posicionada, a roupa que fazia com que o “Patrão” parecesse mais magro esvoaçou enquanto ele abaixava e começava a moldar e umedecer as mãos, usando como base o crânio um tanto peculiar que retirou da mochila por último, começou unindo as belas presas de javali aos maxilares de osso, durante o processo olhou por alguns segundos aquelas órbitas vazias, lembrou dos olhos que as ocupavam, e murmurou para o novo rosto que se formava, enquanto se abaixava sobre os joelhos doloridos e começava a abrir a pele ainda morna  da cabeçorra do tigre morto, no intuito de lhe tirar os olhos.
Ao finalizar a escultura, Gregory tinha a sua frente uma estátua atarracada de meio metro, o sangue de tigre escorria de seus olhos, e sua cabeça desproporcional era o crânio que agora tinha presas saindo de cada lado das mandíbulas grandes, pelos vermelhos sobre a cabeça e um manto comprido de pele de serpente, os que passavam perto, olhavam sem entender e um dos homens de nome indefinido e apelido imbecil, o “Besta”, chegou a comentar sobre a presença de um espantalho ser boa pra afastar os maus espíritos, ao posicioná-la em seu local, voltou-se pra pedir silêncio e um pouco mais de espaço para seus assistentes faladores, depositando sua lâmina afiada dentro da fogueira esquerda e apanhando o cálice cheio de um líquido azulado.
– Retirem a carcaça do animal daqui, e se essa imagem os incomoda vão para mais longe, não quero ter que parar e reclamar novamente! – Ao dizer isso e gesticular com os braços, viu Arif cuspir no chão erguer as mãos e sair para longe acompanhado de mais dois curiosos que se aproximaram pra olhar, da mesma direção pra onde caminharam, uma lua tímida começava a se mostrar entre as copas das árvores.
Sem lembrar do sabor azedo, tomou de uma só vez o conteúdo do cálice, sentiu o peito esquentar e os olhos lacrimejarem, Oeryin ressonava aos seus pés e tudo o que fez foi envolvê-la no manto escamoso que descia das costas do demônio de barro e se estendia pelo chão, mais a frente colocou a pequena balança, de pratos lisos e brilhantes, refletiam o vermelho das fogueiras posicionadas de ambos os lado da pequena clareira criada cortando alguns arbustos, . Mesmo sabendo os cânticos de memória, Gregory resolveu abrir o livro envelhecido, e ao se posicionar de joelhos sentiu o real efeito da poção começar a fazer efeito, se conteve pra não vomitá-la.
Observou as chamas estalarem e mudarem de cor, em tons roxos e azulados, enquanto jogava sobre elas as misturas alquímicas que carregara por tanto tempo, e quando fechou o círculo de sais, viu se assustado com a pele de serpente que a envolvia, apalpando curiosamente e aos poucos despertando, prosseguindo, ele levantou do chão e começou com os cânticos do rito curto mas que provavelmente o marcaria pra sempre, sentiu a voz estranha já nas primeiras palavras, como se dentro de sua garganta houvesse um conflito de mais algumas pessoas acompanhando as frases pausadas em coro.
– Oh, Vida e Morte,eu clamo por vosso olhar! Clamo pelos pratos de sua balança justa! – Gregory depositou as mãos abertas sobre os discos de prata. – Que pesam corações e selam destinos! Peço que permitam um resgate, pelo suor e sangue de teus juízes! – Ao fitar os olhos de tigre, agora enxertados na escultura, pareciam mais esverdeados, o sangue secava abaixo das óbitas, parando nas presas de javali encaixadas que simulavam chifres, um calafrio fez seus braços tremerem e os ombros subiram um pouco.
– Uma sombra devolvem, uma luz recebem! – Depositou nesse momento, uma hematita polida ao disco esquerdo, seguindo com um cristal transparente ao direito.
O silêncio dos homens era coeso, só se ouvia o arder das fogueiras e a respiração da pequenina, que arregalou os olhos esbranquiçados, ao ouvir as vozes sinistras a sua frente, Lian, que dizia não se importar com o que fosse acontecer cutucou o ombro de Harald. que também observava a estranha convocação, coçando o queixo de pelos brancos.
– Teu manto, protege os inocentes! – Enquanto prosseguia, ergueu a pequena e a segurou sobre a cabeça. – E no teu estômago, sofrem os injustos! Era fácil ouvir os soluços dela quando foi erguida, chorava sem entender os arredores, se debatendo em protesto.
– Mostrai os fios que suportam essa existência, ainda que por um instante! MOSTRAI AS CORDAS!
A voz gutural veio com certeza de dentro da carranca, mas era baixa e lenta,  e quando falou pareceu calar tudo, até mesmo as chamas e gritos.
 – Não ofereça o que não lhe pertence!
A cabeçorra separou-se de seu maxilar como se fosse continuar falando, então estremeceu sobre a argila seca e quebradiça que lhe servia de corpo, o clarão e a onda de calor vindos em seguida alcançaram uma pequena extensão da mata e os, homens, animais e a Lua ouviram o som de um único grito estridente, o mais alto que uma criança jamais conseguiu, o tempo perdeu seu fluxo, e estalos mais altos expulsavam algumas brasas em ambas as fogueiras, as chamas eram inconstantes e coloridas, com as folhas que antes cobriam o solo se erguendo como se estivessem num súbito vendaval. A criança flutuava com as pernas e braços soltos no ar, as marcas feitas sobre sua pele pareciam arder, e ao seu redor orbitava uma esfera negra que antes era apenas osso e argila, deixando para trás uma fumaça de cheiro apodrecido.
Ao se ajeitar no solo, Gregory tinha uma expressão de espanto, com olhos vidrados e sangue nas narinas, a entidade não deveria poder reagir ao chamado com agressividade.  Ainda assim, respirou fundo e após se localizar melhor saiu engatinhando para perto da perto de seu punhal, sabia que algo estava errado, e que teria de intervir rápido, mesmo após apanhar a arma, que àquela altura possuía um brilho alaranjado, não entendia o porque da falha incomum. Havia a chance de continuar mas agora estava contida em um único golpe que não podia falhar.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A Caçada - Parte 2

Após um curto tempo de espera o Sol se ia do céu, deixando as nuvens alaranjadas sobre as árvores, paisagem que poucos dos ali presentes contemplaram, pareciam todos concentrados e treinados ao enrolar tochas e armar bestas, e antes mesmo que terminassem de se preparar, na mata mais a frente ouviu-se o rugido inconfundível, alguns pássaros em revoada confirmaram a presença de um animal bravo que acabara de ser aborrecido, era a deixa para que os homens também avançassem com cautela atrás de seu batedor, Arif.
– Vamos, com atenção! A ponta da flecha já brilha no céu, e quero escrever sobre essa caçada sem ter que nomear mortos! – Julius apontava para uma estrela solitária, sabia se orientar pelos céus tão bem quanto tocava seu alaúde nas noites em que tinha permissão.
O “Mãozinha” bufou, como sempre fazia quando via que alguém estava muito cheio de si ou falando por demais.
– Pff! Tu devia parar de falar assim, parece um bobo!
– Prontos? – Perguntou Therul. – É o último da lista! Tomem cuidado, ou vão me obrigar a enterrar outro, e dessa vez sem uma pá! – Riu alto e foi repreendido, como já era de costume.
O velho Harald mancava ao lado de Gregory, apoiava-se na lança com dificuldade, tudo pra não escorregar na descida, trocou com o Patrão algumas palavras sobre território hostil na floresta, e avisou que os dardos do caçador demorariam a surtir efeito, mas que começariam arrancando o fôlego do tigre, deixando-o fácil de rastrear e seguir.
  Quase uma hora depois, a escuridão e outras estrelas preenchiam o início da noite enquanto o grupo cruzava um raso riacho, saltando suas pedras com tochas já acesas, bestas e arcos preparados para atacar, Lian gargalhou quando o gordo e suarento Bill escorregou e afundou até o peito na água escura e fria, mas ficou sério novamente após ajudá-lo e ganhar um cascudo como agradecimento, mais a frente, Arif aguardava de pé numa árvore alta, ajeitando o turbante, ele apontou para o rastro deixado pela enorme criatura.
 A presa já podia ser ouvida e vista, ainda que ao longe, cambaleava em frente esbarrando em troncos que tremiam e estalavam com seu peso, o felino era realmente tão grande quanto um cavalo, mas agora deixava pequenas manchas de sangue na terra, abandonando a imponência que ostentava em vida, conforme o grupo seguia e fechando um círculo de armas ao seu redor, ficava mais fácil visualizar sua confusão, e seu arfar que ainda levantava nuvens ferozes de vapor, todos posicionaram-se, silenciosos e aguardando o momento certo. O maravilhoso pelo alaranjado, mesmo agora, sujo, hipnotizava aos caçadores, homens também esbaforidos e suados após a apressada perseguição que já durava muito pra patas e pernas, certamente na maioria das tradições ou crenças mundo afora, o belo tigre seria uma oferenda a altura de qualquer rei ou líder tribal, poucos de sua presença e beleza eram vistos nos últimos anos em toda Varmallus.
– Senhor! – Harald falava baixo e se esforçava para acompanhar os passos do nativo, que por sua vez parecia inquieto, o velho era o único a chamar Gregory com os devidos títulos e sem um sorriso zombeteiro no rosto, isso fazia com que ele ouvisse suas opiniões.
– Arif diz que não devemos avançar mais, já estamos em terras bárbaras, entramos ao cruzar o riacho segundo ele! – Como resposta o “Capitão” fez um aceno suave enquanto seguia curioso pra frente da formação, a luz das tochas trazia um  tom bonito ao pelo do animal, que lutava pra se manter sobre as pats, o veneno extremamente caro do caçador provou-se bastante eficiente.
Sabendo que seu “Patrão” se aproximava logo atrás dele, Thomas, um não tão forte homem do Oeste, com olhos azuis e uma mal cuidada barba preta, bradou retesando o arco, e sua voz estridente atraiu o olhar moribundo do animal para o seu.
– Já que usará apenas os olhos, que mal haveria em lhe levar o couro Capitão? Aposto que conseguiria quase um ano de puteiro por algo tão bonito e raro! Já não temos bocetas conosco e sou um homem de necessidades – Sorriu fazendo um dente de ouro refletir na luz das tochas.
A voz abafada e pausada que quase nunca se ouvia respondeu alta por detrás do arqueiro, assustando-o tanto quanto o felino a sua frente, que caiu na terra, e em silêncio começou a se arrastar, tentando livrar-se do dardo envenenado.
– Devia arrancar o seu couro, não faria falta um poltrão que só quer gastar com putas e cerveja! Vá vestir e marcar a pirralha e peça pra acenderem uma fogueira, vamos! E os outros terminem de uma vez com o sofrimento do animal, quanto antes acabarmos com isso, melhor!
Ganhando espaço entre seus homens, Gregory embainhou sua bela espada, baixou o capuz e soltou a máscara triangular que deixava apenas os olhos claros e a testa a mostra, revelando cabelos compridos, desgrenhados e um rosto jovem, mas cansado; Os pelos que cresciam em seu rosto eram escuros e ralos, numa tentativa de esconder o corte quase cicatrizado que saía da sobrancelha direita e descia reto até o maxilar, uma marca cruel que o irritava, assim como as olheiras que possuía. Segundo Julius, as marcas de tanto tempo longe umedeceriam os lábios das tantas mulheres que ele desejava em sonhos mal-dormidos, e também provar a bravura digna de um cavaleiro ao seu sisudo pai, Lorde Arthur Nalfert, o suserano das distantes terras a Oeste, caso elas o atrapalhassem em algo, poderia se cuidar com a ajuda de um bom curandeiro, comida e descanso dignos de um herói regressado. 
O futuro Cavaleiro buscou em sua mochila de couro bruto por alguns dos afamados potes e lâminas que recebera para concretizar o estranho rito que lhe fora ensinado durante meses seguidos até a exaustão,  dentre eles havia um cálice claro esculpido em osso, uma volumosa sacola em seda púrpura e um punhal de cabo trabalhado e lâmina afiada, perigoso como a língua dos conselheiros de seu pai.
– ...Os malditos conselheiros que convenceram meu senhor a mandar-me tão longe do conforto e pompa. – Pensou raivoso, apertando o cabo da arma, ao olhar novamente para a lâmina conseguiu ver o reflexo de seu novo rosto, ferido e retorcido pela raiva e o tremular do fogo, em seguida voltou a atenção para Harald, que enterrava metade de sua lança por trás do pescoço do animal, este fez ressoar um último rugido alto e assustador, mas perdeu a vida ao se deitar e começar a verter sangue. Arif levou o dedo aos lábios pedindo o silêncio de todos, quando conquistou-o, já estava ajoelhado junto do animal, e entoou algum tipo de oração pela sua alma, passando uma gota do sangue grosso e de cheiro forte na própria testa.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A Caçada - Parte 1

Após mais alguns meses de viagem, o verão se aproximava úmido e abafado na orla de uma das grandes florestas do Sul, a maioria dos que ali estavam começava a adentrar a mata mais fechada, homens que foram contratados há pouco mais de um ano e fariam agora sua última missão antes do volumoso pagamento prometido e seu retorno pra casa, houve baixas e recontratações nesse longo período decorrido e o destacamento contava agora com doze pessoas ao todo, sendo uma dessas Oeryin, criança bastante magra e provavelmente adoentada, que seguia carregada ou dormindo na maior parte do tempo. Enquanto estiveram juntos, o grupo foi exposto ao frio do inverno, marchas forçadas, fome, salteadores de estrada, e tantos outros tropeços, tudo isso para reunir uma seleção de ingredientes bastante exóticos, plantas, cristais e até mesmo alguns retalhos extraídos de criaturas perigosas enquanto vivas, a equipe não sabia em que receita seriam utilizados, mas criava as mais diversas versões para seu destino.
 –Talvez as presas sejam pra uma daquelas garrafadas afrodisíacas, já ajudei a capturar um alce uma vez e lhe rasparam os galhos pra levantar a macheza de um velho afortunado! – Questionou o bigodudo Therul, um corpulento homem moreno das planícies centrais, porém, ao obter apenas risos e o olhar de reprimenda do seu líder, silenciou e foi em frente, ainda  curioso e abrindo a mata com seu facão.
Um dos novos contratados era um negro mutilado, ninguém aprendeu seu nome por ser muito longo, ainda assim o maneta era bem quisto,  ergueu a voz um pouco, tentando definir uma boa resposta, quebrando o silêncio que se instalava.
– Pff! Já conversei com o Senhor sobre como isso acaba, ele vai tentar fazer a menina enxergar de novo, pelo que entendi tá juntando só coisas fortes pra dar força pras vistas dela! Certo?
– Tá, tá! Bigode e Mãozinha! – O pequeno Lian parou de cortar galhos por alguns segundos, enxugou o suor com um suspiro e abriu os braços bastante fortes pra um rapaz de quatorze anos. – Deixem esse assunto de lado e vamos tentar encontrar a trilha, certo? Por mim o Capitão poderia fazer sopa com todo o mato e os potes que ele carrega nas costas, quero só acabar e pegar meu ouro! – Mais risos espantaram um pássaro colorido que perdeu o interesse nos homens que invadiam a mata através de uma nova picada, após mais alguns palpites dos outros, uma canção resolveu ritmar seus braços, e abrir caminho tornou-se o foco novamente.
O contratante não cantava, seguia calado e sério, ele sabia como e quando utilizaria os líquidos, pelos e tudo mais, assim como os que o acompanhavam vestia roupas surradas, mas portava belas armas e botas, mantinha seu rosto quase sempre coberto por capuz e máscara, era uma figura incomum que costumava seus distintos contratados batizaram de “Capitão”, “Chefe’, “Patrão” e outras patentes, ditas num tom de voz sarcástico que ele simplesmente ignorava, talvez por não se importar, talvez por precisar do grupo pra auxiliá-lo, afinal, este último “ingrediente” certamente seria tão difícil de obter quanto as presas do Javali mal-humorado de seis meses atrás. Ao completar a difícil jornada para a qual foi designado, Lorde Gregory, ou o Patrão, receberia seu título de Cavaleiro, algo que nunca desejou realmente e que viria apenas pra reforçar o direito a herança de seu pai. Nada contra um pouco de renome, contudo, esse tempo longe de casa e das regalias as quais estava adequado, acabou também tornando-o um pouco mais esclarecido sobre como as coisas funcionavam, tentou se proclamar filho de um suserano para sua pequena tropa e acabou virando o motivo pra risos, havia saudades de sua terra, principalmente quando o respeito aos títulos era o assunto. Pensava freqüentemente em seu irmão mais novo, Gilbert, que a essa altura já havia casado com a filha mimada de algum dos proprietários de terra, sem a possibilidade de conhecer todas as montanhas e mulheres que ele citaria ao retornar pra casa.
Outra coisa que o incomodava era pensar nas intenções dos que diziam ser seus amigos e de seu pai, que o mandaram para essa missão incomum. Será que duvidavam que ele fosse capaz de a concluí-la? Ou simplesmente queriam ouví-lo alegar qualquer dificuldade inventada para evitá-la alguns dias antes de partir? – Tanto faz! – Murmurou, ali estava ele, e mesmo após algumas cicatrizes e  histórias tristes a mais, um leve sorriso satisfeito se abriu em seus lábios cobertos.
Após encontrarem a trilha que o mapa duvidoso indicava, o Chefe olhou ao seu redor, era perceptível que a maioria dos homens conseguidos para essas incursões era de índole duvidosa, pois não se costuma encontrar quem esteja disposto a arriscar a vida e sair pra caçar serpentes gigantes e raposas de pelo-chama simplesmente em troca de ouro, dois dos membros da caravana, sendo um o próprio Therul, possuíam marcas de prisão, mas isso não parecia incomodar o Capitão, que tinha a certeza de que pelo menos mais dois dos presentes estiveram também presos por um crime qualquer, e de que a falecida irmã de Lian, uma mulher de cabelos claros e sorriso fácil chamada Maye, fosse na verdade uma rameira com a missão de ganhar a recompensa de três dos homens ao final da viagem e das caçadas. Infelizmente, ela acabou atropelada pelo javali. As mortes dos companheiros costumavam ser lembradas e lamentadas, sempre que se encontrava tempo para uma boa canção e alguma bebida nas tantas tavernas que foram visitadas até então.
 A última empreitada parecia animar o grupo, que era só sorrisos e assobios, que deram inspiração para um plano digno de mestres, felizmente não parecia haver espaço pra falhas, contavam agora com novos membros que conheciam melhor o terreno, logo, em questão de horas, alcançaram restos de um marsúpio, um provável rastro de seu último alvo, era chegado o momento de caçar. Após uma breve parada, com um almoço que foi só carne seca e vinho, Arif, um homem mal humorado e esguio feito um mico, passou a seguir na frente do grupo, este era de longe a melhor contratação já feita pelo Patrão para caçar e rastrear, em pouco mais de uma hora ele acabou encontrando pegadas frescas, agora todos sabiam que estavam no caminho certo. Ao entardecer, acabaram abandonando a trilha, e apesar de só Harald, o mais velho e coxo dos homens o compreender o “Mico” quando falava seu idioma embolado, era simples compreendê-lo quando ergueu seu braço fino num gesto repentino, após todos pararem, esperando-o agir, o caçador encaixou um dardo em sua zarabatana e partiu silencioso pela abertura que descia entre as árvores cobertas de musgo.