Metodicamente, Gregory separava no chão os retalhos curtidos ou conservados que estavam dentro da mochila, ansiava por aquela noite, e sabia que se tudo desse certo, essa era a parte mais estranha de toda a viagem, ao lembrar do que faria, acabou começando a tremer um pouco, ansioso.
– Ótimo, agora preciso que me arranjem um pouco de água pra amolecer e trabalhar a argila! Vocês dois, preparem fogueiras – Apontou para Therul e Thomas. – Aqui e ali, ponham a menina aqui do meu lado, e por favor, façam um pouco menos de barulho! Se errar no que farei agora, a viagem terá sido em vão!
Oeryn foi trazida por Julius, que a vestiu e desenhou as diversas runas em seu rosto, mãos e pés, ela tinha sono e parecia desinteressada em acordar, o tempo ao lado dos homens na estrada fez com que se acostumasse a ser carregada, já não chorava por sentir cheiro de sangue ou fome, e embora não enxergasse, parecia reconhecer bem cada um dos contratados, que por sua vez acabaram criando algum afeto com ela, ensinando canções e rindo da gagueira comum de quem tenta falar as primeiras palavras.
Após serem dadas as instruções, Gregory apanhou o manto de seda rubra que utilizaria e vestiu após retirar a parte superior da armadura, tinha ainda que fazer alguns moldes com o barro e montar a pequena balança que trazia na bolsa, conforme organizava os últimos detalhes pensou novamente.
– Como essa criança cega irá se tornar algo importante pra nossa guerra? Como pode?
Era perceptível que o Capitão estava mais impaciente do que o normal, se vestiu com pressa, provavelmente por saber que ele e os homens haviam cruzado as fronteiras das quais fora alertado antes mesmo de entrar na mata, em breve estaria pronto pra gritar pela “Cura” da pequena. Componentes postos, fogueiras acesas e balança posicionada, a roupa que fazia com que o “Patrão” parecesse mais magro esvoaçou enquanto ele abaixava e começava a moldar e umedecer as mãos, usando como base o crânio um tanto peculiar que retirou da mochila por último, começou unindo as belas presas de javali aos maxilares de osso, durante o processo olhou por alguns segundos aquelas órbitas vazias, lembrou dos olhos que as ocupavam, e murmurou para o novo rosto que se formava, enquanto se abaixava sobre os joelhos doloridos e começava a abrir a pele ainda morna da cabeçorra do tigre morto, no intuito de lhe tirar os olhos.
Ao finalizar a escultura, Gregory tinha a sua frente uma estátua atarracada de meio metro, o sangue de tigre escorria de seus olhos, e sua cabeça desproporcional era o crânio que agora tinha presas saindo de cada lado das mandíbulas grandes, pelos vermelhos sobre a cabeça e um manto comprido de pele de serpente, os que passavam perto, olhavam sem entender e um dos homens de nome indefinido e apelido imbecil, o “Besta”, chegou a comentar sobre a presença de um espantalho ser boa pra afastar os maus espíritos, ao posicioná-la em seu local, voltou-se pra pedir silêncio e um pouco mais de espaço para seus assistentes faladores, depositando sua lâmina afiada dentro da fogueira esquerda e apanhando o cálice cheio de um líquido azulado.
– Retirem a carcaça do animal daqui, e se essa imagem os incomoda vão para mais longe, não quero ter que parar e reclamar novamente! – Ao dizer isso e gesticular com os braços, viu Arif cuspir no chão erguer as mãos e sair para longe acompanhado de mais dois curiosos que se aproximaram pra olhar, da mesma direção pra onde caminharam, uma lua tímida começava a se mostrar entre as copas das árvores.
Sem lembrar do sabor azedo, tomou de uma só vez o conteúdo do cálice, sentiu o peito esquentar e os olhos lacrimejarem, Oeryin ressonava aos seus pés e tudo o que fez foi envolvê-la no manto escamoso que descia das costas do demônio de barro e se estendia pelo chão, mais a frente colocou a pequena balança, de pratos lisos e brilhantes, refletiam o vermelho das fogueiras posicionadas de ambos os lado da pequena clareira criada cortando alguns arbustos, . Mesmo sabendo os cânticos de memória, Gregory resolveu abrir o livro envelhecido, e ao se posicionar de joelhos sentiu o real efeito da poção começar a fazer efeito, se conteve pra não vomitá-la.
Observou as chamas estalarem e mudarem de cor, em tons roxos e azulados, enquanto jogava sobre elas as misturas alquímicas que carregara por tanto tempo, e quando fechou o círculo de sais, viu se assustado com a pele de serpente que a envolvia, apalpando curiosamente e aos poucos despertando, prosseguindo, ele levantou do chão e começou com os cânticos do rito curto mas que provavelmente o marcaria pra sempre, sentiu a voz estranha já nas primeiras palavras, como se dentro de sua garganta houvesse um conflito de mais algumas pessoas acompanhando as frases pausadas em coro.
– Oh, Vida e Morte,eu clamo por vosso olhar! Clamo pelos pratos de sua balança justa! – Gregory depositou as mãos abertas sobre os discos de prata. – Que pesam corações e selam destinos! Peço que permitam um resgate, pelo suor e sangue de teus juízes! – Ao fitar os olhos de tigre, agora enxertados na escultura, pareciam mais esverdeados, o sangue secava abaixo das óbitas, parando nas presas de javali encaixadas que simulavam chifres, um calafrio fez seus braços tremerem e os ombros subiram um pouco.
– Uma sombra devolvem, uma luz recebem! – Depositou nesse momento, uma hematita polida ao disco esquerdo, seguindo com um cristal transparente ao direito.
O silêncio dos homens era coeso, só se ouvia o arder das fogueiras e a respiração da pequenina, que arregalou os olhos esbranquiçados, ao ouvir as vozes sinistras a sua frente, Lian, que dizia não se importar com o que fosse acontecer cutucou o ombro de Harald. que também observava a estranha convocação, coçando o queixo de pelos brancos.
– Teu manto, protege os inocentes! – Enquanto prosseguia, ergueu a pequena e a segurou sobre a cabeça. – E no teu estômago, sofrem os injustos! Era fácil ouvir os soluços dela quando foi erguida, chorava sem entender os arredores, se debatendo em protesto.
– Mostrai os fios que suportam essa existência, ainda que por um instante! MOSTRAI AS CORDAS!
A voz gutural veio com certeza de dentro da carranca, mas era baixa e lenta, e quando falou pareceu calar tudo, até mesmo as chamas e gritos.
– Não ofereça o que não lhe pertence!
A cabeçorra separou-se de seu maxilar como se fosse continuar falando, então estremeceu sobre a argila seca e quebradiça que lhe servia de corpo, o clarão e a onda de calor vindos em seguida alcançaram uma pequena extensão da mata e os, homens, animais e a Lua ouviram o som de um único grito estridente, o mais alto que uma criança jamais conseguiu, o tempo perdeu seu fluxo, e estalos mais altos expulsavam algumas brasas em ambas as fogueiras, as chamas eram inconstantes e coloridas, com as folhas que antes cobriam o solo se erguendo como se estivessem num súbito vendaval. A criança flutuava com as pernas e braços soltos no ar, as marcas feitas sobre sua pele pareciam arder, e ao seu redor orbitava uma esfera negra que antes era apenas osso e argila, deixando para trás uma fumaça de cheiro apodrecido.
Ao se ajeitar no solo, Gregory tinha uma expressão de espanto, com olhos vidrados e sangue nas narinas, a entidade não deveria poder reagir ao chamado com agressividade. Ainda assim, respirou fundo e após se localizar melhor saiu engatinhando para perto da perto de seu punhal, sabia que algo estava errado, e que teria de intervir rápido, mesmo após apanhar a arma, que àquela altura possuía um brilho alaranjado, não entendia o porque da falha incomum. Havia a chance de continuar mas agora estava contida em um único golpe que não podia falhar.
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