Após um curto tempo de espera o Sol se ia do céu, deixando as nuvens alaranjadas sobre as árvores, paisagem que poucos dos ali presentes contemplaram, pareciam todos concentrados e treinados ao enrolar tochas e armar bestas, e antes mesmo que terminassem de se preparar, na mata mais a frente ouviu-se o rugido inconfundível, alguns pássaros em revoada confirmaram a presença de um animal bravo que acabara de ser aborrecido, era a deixa para que os homens também avançassem com cautela atrás de seu batedor, Arif.
– Vamos, com atenção! A ponta da flecha já brilha no céu, e quero escrever sobre essa caçada sem ter que nomear mortos! – Julius apontava para uma estrela solitária, sabia se orientar pelos céus tão bem quanto tocava seu alaúde nas noites em que tinha permissão.
O “Mãozinha” bufou, como sempre fazia quando via que alguém estava muito cheio de si ou falando por demais.
– Pff! Tu devia parar de falar assim, parece um bobo!
– Prontos? – Perguntou Therul. – É o último da lista! Tomem cuidado, ou vão me obrigar a enterrar outro, e dessa vez sem uma pá! – Riu alto e foi repreendido, como já era de costume.
O velho Harald mancava ao lado de Gregory, apoiava-se na lança com dificuldade, tudo pra não escorregar na descida, trocou com o Patrão algumas palavras sobre território hostil na floresta, e avisou que os dardos do caçador demorariam a surtir efeito, mas que começariam arrancando o fôlego do tigre, deixando-o fácil de rastrear e seguir.
Quase uma hora depois, a escuridão e outras estrelas preenchiam o início da noite enquanto o grupo cruzava um raso riacho, saltando suas pedras com tochas já acesas, bestas e arcos preparados para atacar, Lian gargalhou quando o gordo e suarento Bill escorregou e afundou até o peito na água escura e fria, mas ficou sério novamente após ajudá-lo e ganhar um cascudo como agradecimento, mais a frente, Arif aguardava de pé numa árvore alta, ajeitando o turbante, ele apontou para o rastro deixado pela enorme criatura.
A presa já podia ser ouvida e vista, ainda que ao longe, cambaleava em frente esbarrando em troncos que tremiam e estalavam com seu peso, o felino era realmente tão grande quanto um cavalo, mas agora deixava pequenas manchas de sangue na terra, abandonando a imponência que ostentava em vida, conforme o grupo seguia e fechando um círculo de armas ao seu redor, ficava mais fácil visualizar sua confusão, e seu arfar que ainda levantava nuvens ferozes de vapor, todos posicionaram-se, silenciosos e aguardando o momento certo. O maravilhoso pelo alaranjado, mesmo agora, sujo, hipnotizava aos caçadores, homens também esbaforidos e suados após a apressada perseguição que já durava muito pra patas e pernas, certamente na maioria das tradições ou crenças mundo afora, o belo tigre seria uma oferenda a altura de qualquer rei ou líder tribal, poucos de sua presença e beleza eram vistos nos últimos anos em toda Varmallus.
– Senhor! – Harald falava baixo e se esforçava para acompanhar os passos do nativo, que por sua vez parecia inquieto, o velho era o único a chamar Gregory com os devidos títulos e sem um sorriso zombeteiro no rosto, isso fazia com que ele ouvisse suas opiniões.
– Arif diz que não devemos avançar mais, já estamos em terras bárbaras, entramos ao cruzar o riacho segundo ele! – Como resposta o “Capitão” fez um aceno suave enquanto seguia curioso pra frente da formação, a luz das tochas trazia um tom bonito ao pelo do animal, que lutava pra se manter sobre as pats, o veneno extremamente caro do caçador provou-se bastante eficiente.
Sabendo que seu “Patrão” se aproximava logo atrás dele, Thomas, um não tão forte homem do Oeste, com olhos azuis e uma mal cuidada barba preta, bradou retesando o arco, e sua voz estridente atraiu o olhar moribundo do animal para o seu.
– Já que usará apenas os olhos, que mal haveria em lhe levar o couro Capitão? Aposto que conseguiria quase um ano de puteiro por algo tão bonito e raro! Já não temos bocetas conosco e sou um homem de necessidades – Sorriu fazendo um dente de ouro refletir na luz das tochas.
A voz abafada e pausada que quase nunca se ouvia respondeu alta por detrás do arqueiro, assustando-o tanto quanto o felino a sua frente, que caiu na terra, e em silêncio começou a se arrastar, tentando livrar-se do dardo envenenado.
– Devia arrancar o seu couro, não faria falta um poltrão que só quer gastar com putas e cerveja! Vá vestir e marcar a pirralha e peça pra acenderem uma fogueira, vamos! E os outros terminem de uma vez com o sofrimento do animal, quanto antes acabarmos com isso, melhor!
Ganhando espaço entre seus homens, Gregory embainhou sua bela espada, baixou o capuz e soltou a máscara triangular que deixava apenas os olhos claros e a testa a mostra, revelando cabelos compridos, desgrenhados e um rosto jovem, mas cansado; Os pelos que cresciam em seu rosto eram escuros e ralos, numa tentativa de esconder o corte quase cicatrizado que saía da sobrancelha direita e descia reto até o maxilar, uma marca cruel que o irritava, assim como as olheiras que possuía. Segundo Julius, as marcas de tanto tempo longe umedeceriam os lábios das tantas mulheres que ele desejava em sonhos mal-dormidos, e também provar a bravura digna de um cavaleiro ao seu sisudo pai, Lorde Arthur Nalfert, o suserano das distantes terras a Oeste, caso elas o atrapalhassem em algo, poderia se cuidar com a ajuda de um bom curandeiro, comida e descanso dignos de um herói regressado.
O futuro Cavaleiro buscou em sua mochila de couro bruto por alguns dos afamados potes e lâminas que recebera para concretizar o estranho rito que lhe fora ensinado durante meses seguidos até a exaustão, dentre eles havia um cálice claro esculpido em osso, uma volumosa sacola em seda púrpura e um punhal de cabo trabalhado e lâmina afiada, perigoso como a língua dos conselheiros de seu pai.
– ...Os malditos conselheiros que convenceram meu senhor a mandar-me tão longe do conforto e pompa. – Pensou raivoso, apertando o cabo da arma, ao olhar novamente para a lâmina conseguiu ver o reflexo de seu novo rosto, ferido e retorcido pela raiva e o tremular do fogo, em seguida voltou a atenção para Harald, que enterrava metade de sua lança por trás do pescoço do animal, este fez ressoar um último rugido alto e assustador, mas perdeu a vida ao se deitar e começar a verter sangue. Arif levou o dedo aos lábios pedindo o silêncio de todos, quando conquistou-o, já estava ajoelhado junto do animal, e entoou algum tipo de oração pela sua alma, passando uma gota do sangue grosso e de cheiro forte na própria testa.