–Talvez as presas sejam pra uma daquelas garrafadas afrodisíacas, já ajudei a capturar um alce uma vez e lhe rasparam os galhos pra levantar a macheza de um velho afortunado! – Questionou o bigodudo Therul, um corpulento homem moreno das planícies centrais, porém, ao obter apenas risos e o olhar de reprimenda do seu líder, silenciou e foi em frente, ainda curioso e abrindo a mata com seu facão.
Um dos novos contratados era um negro mutilado, ninguém aprendeu seu nome por ser muito longo, ainda assim o maneta era bem quisto, ergueu a voz um pouco, tentando definir uma boa resposta, quebrando o silêncio que se instalava.
– Pff! Já conversei com o Senhor sobre como isso acaba, ele vai tentar fazer a menina enxergar de novo, pelo que entendi tá juntando só coisas fortes pra dar força pras vistas dela! Certo?
– Tá, tá! Bigode e Mãozinha! – O pequeno Lian parou de cortar galhos por alguns segundos, enxugou o suor com um suspiro e abriu os braços bastante fortes pra um rapaz de quatorze anos. – Deixem esse assunto de lado e vamos tentar encontrar a trilha, certo? Por mim o Capitão poderia fazer sopa com todo o mato e os potes que ele carrega nas costas, quero só acabar e pegar meu ouro! – Mais risos espantaram um pássaro colorido que perdeu o interesse nos homens que invadiam a mata através de uma nova picada, após mais alguns palpites dos outros, uma canção resolveu ritmar seus braços, e abrir caminho tornou-se o foco novamente.
O contratante não cantava, seguia calado e sério, ele sabia como e quando utilizaria os líquidos, pelos e tudo mais, assim como os que o acompanhavam vestia roupas surradas, mas portava belas armas e botas, mantinha seu rosto quase sempre coberto por capuz e máscara, era uma figura incomum que costumava seus distintos contratados batizaram de “Capitão”, “Chefe’, “Patrão” e outras patentes, ditas num tom de voz sarcástico que ele simplesmente ignorava, talvez por não se importar, talvez por precisar do grupo pra auxiliá-lo, afinal, este último “ingrediente” certamente seria tão difícil de obter quanto as presas do Javali mal-humorado de seis meses atrás. Ao completar a difícil jornada para a qual foi designado, Lorde Gregory, ou o Patrão, receberia seu título de Cavaleiro, algo que nunca desejou realmente e que viria apenas pra reforçar o direito a herança de seu pai. Nada contra um pouco de renome, contudo, esse tempo longe de casa e das regalias as quais estava adequado, acabou também tornando-o um pouco mais esclarecido sobre como as coisas funcionavam, tentou se proclamar filho de um suserano para sua pequena tropa e acabou virando o motivo pra risos, havia saudades de sua terra, principalmente quando o respeito aos títulos era o assunto. Pensava freqüentemente em seu irmão mais novo, Gilbert, que a essa altura já havia casado com a filha mimada de algum dos proprietários de terra, sem a possibilidade de conhecer todas as montanhas e mulheres que ele citaria ao retornar pra casa.
Outra coisa que o incomodava era pensar nas intenções dos que diziam ser seus amigos e de seu pai, que o mandaram para essa missão incomum. Será que duvidavam que ele fosse capaz de a concluí-la? Ou simplesmente queriam ouví-lo alegar qualquer dificuldade inventada para evitá-la alguns dias antes de partir? – Tanto faz! – Murmurou, ali estava ele, e mesmo após algumas cicatrizes e histórias tristes a mais, um leve sorriso satisfeito se abriu em seus lábios cobertos.
Após encontrarem a trilha que o mapa duvidoso indicava, o Chefe olhou ao seu redor, era perceptível que a maioria dos homens conseguidos para essas incursões era de índole duvidosa, pois não se costuma encontrar quem esteja disposto a arriscar a vida e sair pra caçar serpentes gigantes e raposas de pelo-chama simplesmente em troca de ouro, dois dos membros da caravana, sendo um o próprio Therul, possuíam marcas de prisão, mas isso não parecia incomodar o Capitão, que tinha a certeza de que pelo menos mais dois dos presentes estiveram também presos por um crime qualquer, e de que a falecida irmã de Lian, uma mulher de cabelos claros e sorriso fácil chamada Maye, fosse na verdade uma rameira com a missão de ganhar a recompensa de três dos homens ao final da viagem e das caçadas. Infelizmente, ela acabou atropelada pelo javali. As mortes dos companheiros costumavam ser lembradas e lamentadas, sempre que se encontrava tempo para uma boa canção e alguma bebida nas tantas tavernas que foram visitadas até então.
A última empreitada parecia animar o grupo, que era só sorrisos e assobios, que deram inspiração para um plano digno de mestres, felizmente não parecia haver espaço pra falhas, contavam agora com novos membros que conheciam melhor o terreno, logo, em questão de horas, alcançaram restos de um marsúpio, um provável rastro de seu último alvo, era chegado o momento de caçar. Após uma breve parada, com um almoço que foi só carne seca e vinho, Arif, um homem mal humorado e esguio feito um mico, passou a seguir na frente do grupo, este era de longe a melhor contratação já feita pelo Patrão para caçar e rastrear, em pouco mais de uma hora ele acabou encontrando pegadas frescas, agora todos sabiam que estavam no caminho certo. Ao entardecer, acabaram abandonando a trilha, e apesar de só Harald, o mais velho e coxo dos homens o compreender o “Mico” quando falava seu idioma embolado, era simples compreendê-lo quando ergueu seu braço fino num gesto repentino, após todos pararem, esperando-o agir, o caçador encaixou um dardo em sua zarabatana e partiu silencioso pela abertura que descia entre as árvores cobertas de musgo.
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